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Gisele Camargo – Falsa Espera, Esboço Vivo, Mistério ou A Paisagem Interior Plural

Em ARTE em 09/04/2012 às 14:34

Há uma paisagem interior ativa que sempre nos acompanha, e que vamos descobrindo ao fazer e avançar nela, deslumbrados pioneiros/construtores que somos, explorando-nos; e explorando connosco o que mais tocamos.

Transformamos o mistério e a tragédia de estar vivos, nesse percurso pelo que vamos sendo. Revelamos a beleza do mundo nas cores pequenas que apenas vemos e que nos surgem, intuídas devagar. Cores que se esboçam como gestos íntimos que se cobrem cheios de emoções, fartos e orgulhosos; como se cobrem de novo depois, da dor funda e espessa desse importante e fecundo parto.

Estas pinturas que ninguém habita mostram lugares de permanente paragem cujo mistério nos pertence a todos, um puzzle estático mas ambicioso a exigir de nós o sentido e o significado, como fotografias aéreas de um lugar particular. São terras condenadas à permanência do silêncio, à procura da sequência perdida que lhes dará então corpo inteiro; do gesto simples que lhes trará enfim sentido; calor, palavra, riso. Mas ao contrário da falsa aridez que nos aparece, naquelas terras mora a fertilidade que acordará ruidosa e louca na semente. A onda alta a receber vermelha a gota…

Interrogação, certeza, mistério.

Que fará em nós o passar por ali, descobrir inventando a natureza daquele lugar, reconhecendo por fim a razão da sua existência; num golpe esparso da profunda memória, na curva brusca de um delírio tosco?

Estas paisagens pós-humanas apontam abrangentes para a escolha íntima, para o caminho próprio, devolvendo a cada um a luta com o seu pontual mistério. A ausência que se desprende daquela paz calma exige a consciência da paisagem escolhida, e a coragem clara de a percorrer.  Aqui ao segredo se responde com o desejo; ao medo da vida com a força da mudança; à tragédia com o crescimento; à pequena morte com a completude, bem maior…

Porque tudo permanecerá exactamente ali, muito tempo depois, mesmo…

Gisele Camargo, carioca de quarenta anos, escolhe de filmes de Werner Herzog ou Andrei Tarkovsky algumas cenas que lhe inspirarão as obras, pinturas que depois juntas formam painéis de dípticos e trípticos em instalações que continuam para lá dos cantos das paredes em que se apoiam. Com um método impecável realiza um estudo detalhado da procura, descobrindo o que será cada quadro, cada grupo de quadros, cada série; reduzindo ao seu essencial o que será depois preenchido com as linhas e os tons que se lhe revelarem. O seu caderno de estudos, verdadeiro manual dramatúrgico da sua pintura, é um fascinante documento singular, quase vivo; apostado na questionização gráfica potente e planeada mas aberta do tempo futuro, enigma transversalmente reconhecido.

Este processo de apropriação/processamento/criação configura na sua essência o que sempre todos fazemos. Mas desta obra maior resulta um objecto/paisagem de caráter verdadeiramente plural e significativo. Abrangente e intemporal, ela discute subtilmente a direção do nosso olhar quanto ao significado do seu maior sentido…

Este minimalismo expressivo, parco em cores e forte em raciocínio, trata assim do lugar interior plural, transformando uma longínqua aventura numa privada e maravilhosa odisseia. Dá-nos na tela em branco dessa comum pluralidade a exigência e a oportunidade de reconhecimento e conquista de um lugar próprio, nosso, exclusivo.

Numa das cenas do filme Stalker, de Tarkovsky, os três personagens partem enfim para a Zona, rodando sobre carris, a câmara captando os seus rostos, a paisagem difusa em pano de fundo alternando, sempre a preto e branco, com o cenário deserto dos arredores decadentes da cidade. Partem em busca de sentido, de si próprios, do seu lugar interior. A artista refere esta cena como uma das chaves possíveis para o seu trabalho. De facto, estendendo o olhar pelas paisagens que nos apresenta, encontramos nelas claramente explícita a possibilidade encorajada de uma grande viagem interior pertinente, aqui sem metáforas nem ponto de chegada, mas antes como um processo permanente, contínuo, enquadrado nesta depurada cenografia subjectiva que incentiva e cataliza a descoberta, a vivência, a possibilidade realizada.

O maravilhoso mar novo de uma linguagem estranha a pedir-nos urgentes a voz e as palavras…

Toda a pintura de Gisele Camargo será talvez assim uma grande Zona, espaço metafísico receptivo, um spleen progressivo em pano de fundo à maior pulsação que intuir conseguirmos.

Uma casa verdadeiramente nossa por habitar que teima em se transformar em labirinto…

Umbigo nº 40, Portugal, Março de 2012

Frankensteins de Louça ou Retalhos da Beleza Maior

Em ARTE em 30/01/2012 às 20:00

Na antecâmara do atelier de Barrão pessoas animais e outras coisas esperam, a postura congelada, que um capricho os liberte para a morte, o grande recomeço.

O destino artista reservou-lhes uma existência maior na forma de união com outros corpos. Será a mesma mão que os escolheu dentre muitos a destruir-lhes o corpo, bruta, para depois lhes colar os pedaços a outros; igualmente privilegiados pela escolha.

Tudo aquilo é uma espécie de ante câmara dos horrores, mas sem carne nem sangue – está seca a cerâmica que se esconde debaixo daquelas cores, do brilho fino daquele verniz.

O artista cria então, destruindo e reconquistando depois – numa soma de muitas e diferentes partes – um novo e estranho símbolo, e ser. Podemos ver aqui uma ópera trágica e divina, em três actos.

Acto Primeiro – Barrão escolhe as peças nas lojas, fábricas e mercados por onde passa; um reconhecimento do objecto pela estranheza, pela beleza ou por outra identificação, subtil ou não. Muitas vezes vai às compras numa excursão de caça em busca das suas belas presas – e este safari urbano é um passeio invejável!

Vai garimpando na deriva. Vai passear para ser seduzido. E sequestra depois as coisas ao mundo.

Acto Segundo – Acontece a morte violenta dos escolhidos, o ritual de quebrar, prazer também infantil mas não só. Imaginam-se cacos que voam, formas bicudas, sorrisos no ar. Esta brincadeira séria, acção fria de morte sobre as pequenas coisas sedutoras, rejeição do flirt a que se tinha entregue; é a zona explosiva do processo, o seu ponto alto. A orquestra entra aqui com tudo, a plateia arrepia. Isto corresponde à estocada final da tourada; à maior altura a que chega o foguete no ar; ao orgasmo no amor. Pode-se ver aqui em acção a máxima de que para se construir tem que se destruir primeiro, a lógica da tabula rasa.

De facto aqui o artista, – por detrás do prazer imediato que se imagina, – recusa as formatações existentes; e tendo-se-lhes antes entregue seduzido, assume essa recusa no acto concreto da destruição.

Isto é, claro, uma séria reacção à ordem fabricada das coisas; à formatação da beleza; à ausência de critérios próprios; à predefinição das curvas da própria aventura…

Acto Terceiro – Agora é-se deus a sério! Com a delicadeza e lentidão que a minúncia exige, Barrão reconstrói vida nova a partir da morte, colando pedaços de vários corpos num só corpo, objecto. Na ambição de uma nova totalidade, são aqui fundidos vários pequenos e efémeros amores num único amor; maior, próprio, ambicioso. De jorros invisiveis saiem os novos corpos, multiplicados…

 

Vê-se aqui o herói, também vilão, no centro do palco, como um joelheiro elegante concentrado na sua tarefa maior, a razão de toda a sua aventura: tentar construir, por repetição de tentativas, o corpo-ser perfeito: Aquele que, saído das suas mãos e da vontade do seu espírito, – recuperação somada do melhor que os pequenos amores fugazes deixaram – reúna toda as potencias possiveis; fazendo depois, da vida, uma história de facto superior. Talvez agora um violino gema solitário, o solo delicado de uma força maior, a ponta de um iceberg afectivo.

 

Há aqui uma revelação dramática escondida no epílogo: Todas as peças serão devolvidas ao mundo! Sendo esse o objectivo primário de toda a acção – entregar a outros o resultado final da aventura – podería falar-se de generosidade, se não fosse a ambição pessoal do artista o principal leitmotif. Claro que esta ambição jamais será satisfeita, aliás, o âmago da questão está precisamente na insatisfação e procura contínua, utópica afinal. Deve-se lembrar Beckett: “Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better.”

O cadáver esquisito que é esta obra de arte importante, uma explêndida metáfora, é algo cruel mas honesta!: mataremos o mais belo que conseguirmos roubar ao mundo e dessas partes construiremos as pegadas cheias que iremos deixando – testemunhos da nossa existência – à vista de todos.

O Eros e o Thanatos são aqui experimentados e assumidos no seu explendor maior, fugaz mas intenso. Entre eles vive, ligando-os, uma alternância em espiral que tende ao infinito, sempre…

Se a estranha beleza de algumas obras seduz, estas mantêm um potente simbolismo que ultrapassa qualquer atracção meramente estética. Será assim previlegiado quem possuir um tão profundo testemunho circunstancial do percurso de vida e criação do artista.

 

Barrão é representado pelas galerias Fortes Vilaça em São Paulo,

e Laura Marsiaj no Rio de Janeiro.

Fotografias cortesia do artista.

Jorge Emanuel Espinho

Noites Claras (13)

Em PROSA em 09/01/2012 às 12:24

A entrevista ou reconhecimento como lhe chamavam, acontecia normalmente numa sala redonda, ampla e luminosa, situada no terceiro piso da torre central do castelo. Havia um recanto mais escuro perto da porta, um cadeirão junto à lareira sempre acesa e uma enorme mesa rectangular ao centro com duas ou três cadeiras sem braços desarrumadas à volta. Numa parede uma estante alta de carvalho velho com garrafas de vários vinhos e copos de vidro grosso, um vaso lascado com rosas de várias cores, ao lado a cabeça de um veado de chifres enormes sai da parede, o olhar de vidro azulado. O chão de largas traves de madeira escura tapado no meio por um enorme tapete vermelho grosso e meio gasto, a lembrar a pele de um bicho antigo, de outra parede uma janela larga rasgava a vista sobre o vale abaixo, as casas, o porto, a baía, um quadro em pastel adormecido.

O salão não era nem acolhedor nem austero e era neste ambiente mais ou menos neutro que os Velhos conheceriam o jovem, cada um deles interpelando-o à sua maneira, numa conversa mais intensa sobre um dado assunto que nunca seria seriamente tratado, observando-o talvez apenas da janela em silêncio para perder de novo o olhar no céu azul, ouvindo-lhe o tom da voz sem cuidar das palavras, ou entrando na sala de surpresa apenas para o cumprimentar e saindo de seguida com uma opinião, talvez pequena mas firme, já tomada. Aconteciam por vezes, dependendo do carácter do entrevistado, momentos de alguma tensão já que este poderia na sua sensibilidade sentir-se atacado por ver que todos os seus movimentos eram estudados, a forma como se virava para olhar alguém que mal entrava e se lhe dirigia com voz firme e grossa, um olhar frio pousado na perna que cruzara ao sentar-se, um instante de silêncio duro ou um forçado brinde a que lhe pediam o tema testando-lhe a atenção a inteligência e a soltura. Deixavam que o ruído do vinho a cair no copo pairasse na sala e escorresse, quietos, numa breve graça solene de que se ririam todos mais tarde.

Havia sempre no entanto uma fluidez neste improviso, uma facilidade no estar ali como se logo à partida o conhecessem mais do que podiam, como se espreitassem nele as coisas mais fundas que o marcavam, como se todos os traços dos homens e mulheres tão diferentes que por ali tinham passado e passariam lhes fossem de imediato familiares e fáceis, como se neles morassem esses mil ecos mudos que os enriqueciam ao ponto de aquilo ser muito mais uma confirmação da certeza tida toda no primeiro olhar e até antes disso, do que para eles uma descoberta ou um teste a esclarecer.

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